Terra das Sombras - A Saga de Antonie Uckerman é um conto inteiramente original feito por esta que voz fala, e inteiramente resguardado na lei de autoria. Todos os Direitos Reservados.

18 de março de 2010

01 - O Início do Cavaleiro.


___Quantas vezes já ouvimos aquelas velhas histórias sobre jovens e desconhecido camponeses, que logo se tornam cavaleiros das classes mais baixas, porém que ao resgatar a indefesa dama de algum sinistro perseguidor, as vezes humano, as vezes não-humano, se tornam os senhores das terras médias?
___Bom, essa não é aquela história. Ou talvez seja. Mas se for, tudo o que virá a seguir, ocorreu após o “viveram felizes para sempre”.
___A felicidade não é eterna. Sempre surgirá uma nova batalha épica, assim que você retornar de sua última disputa mortal. Esse é o ciclo da vida. Pessoalmente acredito que não precisaríamos de palavras como “perseverança”, “superação”, “determinação”...Se não fossemos passar por inúmeras batalhas de vida ou morte. Afinal, os lendários heróis das Eras passadas não foram aqueles que lideraram um gigantesco exército em uma única batalha, mas sim aqueles que brandiram, solitários, sua espada danificada contra orlas de demônios semimortais.
___Todas essas minhas opiniões são divididas por uma pessoa, um homem que sobreviveu às dolorosas batalhas da Terra Média, sendo apenas mais um cavaleiro entre as centenas do exército de seu senhor. Pobre Antonie Uckerman. Por inúmeros ciclos lunares praguejou aos céus, repetindo inúmeras vezes:
___- Maldito seja o destino dos homens! Se fosse eu o Senhor de tal exército, não passaríamos pelo vergonhoso extermínio de todos, menos um. E por Deus, Maldito seja ainda mais, que seja eu este um.
___A vida de Antonie não fora diferente da juventude dos bravos cavaleiros das fantásticas histórias. Seu final, porém, fora absurdamente controverso, embora ainda sim...feliz. Peço que sente-se junto ao fogo, forasteiro. A noite já vem alta e o frio não tarda. Venha ouvir a história sobre um dos mais bravos homens das Terras Médias.

___Antonie Uckerman nasceu no meio das barracas de frutas e peixes do fétido mercado da pobre cidade de Haien, perdida nos vales do que hoje é a Europa.
___Jamais conheceu o pai, e não se sentia nada feliz com as fantásticas histórias que o irmão, Ronnan, lhe contava sobre um suposto pai de incríveis façanhas em um navio pirata. Eleonora, sua mãe, uma pobre vendedora de frutas, pouco ligava para os dois filhos, por vezes os espancando nos momento de bebedeira, apenas por Ronnan e Antonie se parecerem com o pai.
___Devo pausar a narrativa para lhe explicar, forasteiro, que Antonie era o filho mais velho, embora Ronnan parecesse como tal, sendo dois anos mais novo porém mais alto. Pois bem, vamos voltar à infância de nosso herói.
___A vida era simples, de diversas maneiras. Não tinham muito dinheiro, mas tinham um lar para viver e comida jamais faltou. Era simples também porque Antonie passava seus dias como bem queria, e nenhuma preocupação tomava seu tempo. Tempos fáceis eram aqueles. Mas havia um estranho fenômeno que agia engraçado. Antonie se perguntava se seria apenas em Haien, ou se todos os povos do mundo passariam por tal fenômeno. O fenômeno que Antonie viria a descobrir chamar-se: Destino.
___Em seus 14 anos de vida simples, Antonie aprenderá apenas uma coisa de grande importância: Quanto mais tempo dura à calmaria, pior é a tempestade, quando ela chegar. Já fazia vários anos desde o último caos em Haien, o que significava que novos problemas estavam chegando. E foi naquela mesma noite que Antonie teve certeza de suas preocupações.
___Batidas ecoavam ao longe em sua mente. Madeira contra madeira? Parecia ser isso. Algo sendo martelado, talvez. O som foi ficando mais alto e incomodo, até que Antonie finalmente despertou. A chuva forte trouxe consigo um vento de grandes proporções e a pequena trava da janela não resistiu por muito tempo, fazendo as folhas de madeira irem e virem, na volta se chocando com o batente da janela. Antonie moveu-se para fora da cama. O quarto estava escuro, mas não havia muito no que se bater no caminho. Puxou as folhas de madeira até se fecharem, e as amarrou juntas com uma camisa que havia largado sobre a cadeira do quarto. Já voltava para cama quando seus olhos, agora mais acostumados à falta de luz, notaram a ausência do habitual montinho sob os lençóis da cama mais próxima à janela. Onde estava Ronnan?
___Foi até a mesa de cabeceira que ficava entre as camas e riscou um fósforo, aproximando a chama alaranjada do pavio de uma vela. O quarto se iluminou debilmente, e Antonie confirmou a ausência do irmão. Ronnan costumava ter medo das tempestades, talvez tivesse corrido para o quarto da mãe. Achava isso pouco provável, uma vez que era para a cama dele que Ronnan sempre pulava, mas preferiu acreditar em sua primeira suposição, a ter que imaginar qualquer coisa pior. Saiu do quarto e andou pela casa, rumo ao quarto da mulher que graças às travessuras do tal destino, chamava de mãe. Abriu a porta levemente e esticou a vela para dentro. Ronnan não estava lá...e nem sua mãe.
___Antonie correu pelos outros cômodos da casa, mas seu irmão e sua mãe pareciam simplesmente ter desaparecido. Não teriam saído naquela chuva, e ainda mais tão tarde. Antonie já estava rumando para a minúscula sala quando um súbito vento extinguiu a chama de sua vela. Por um segundo não se importou, no segundo seguinte se perguntou de onde vinha aquele vento, e no próximo segundo encarava perplexo a porta da frente completamente aberta para a chuva e o vento. Ele e Ronnan costumavam chamar seu lar de “casa ao contrário”, pois a porta da frente dava para um pequeno campo que terminava em um penhasco sobre o rio, e a porta dos fundos dava acesso à estradinha que rumava para o mercado central.
___Um vulto jazia imóvel e ereto entre a casa e o penhasco. Antonie ignorou qualquer noção de medo e perigo, se lançando para a chuva, na direção do vulto. Quanto mais se aproximava, melhor enxergava a figura de sua mãe, parada na chuva forte.
___- Mãe! – Gritava a cima dos trovões. – Mãe, Ronnan sumiu!
___- Quem é Ronnan? – Ela não o olhava. Olhava apenas os céus escuros.
___- Do que está falando, mãe?
___- Seu pai voltou, sabe? – Eleonora falava com uma calma sinistra. – Ele entrou em casa de alguma forma, e foi até meu quarto e se deitou em minha cama. Fiquei furiosa. Que tipo de homem desaparece por tantos anos, e uma noite volta como se nada tivesse acontecido? Eu o agarrei e o tirei de lá. Engraçado, ele não parecia mais ter a força de antes. Eu o trouxe aqui pra fora, e o joguei dali.
___Eleonora apontou firmemente para o penhasco a frente dos dois. Antonie, assustado, começava a entender a verdade sobre a loucura de sua mãe. Perdido no desespero correu até a beira do penhasco, ralando os joelhos na pedra lascada, olhando para baixo. Ali, muito a baixo dele, e ainda sim muito acima do rio, enroscado em um precário galho que despontava da marulha de terra, estava o velho trapo de pano que Ronnan tinha quase como um tesouro, jamais indo a algum lugar sem ele. Então essa era a verdade. Ronnan tivera medo da tempestade, e por alguma razão foi procurar a mãe, mas em sua loucura, Eleonora achou que fosse seu marido e jogou Ronnan do penhasco.
___Antonie chorava silenciosamente, ali ajoelhado, olhando o rio furioso de águas pesadas que agora já teriam levado o corpo de seu irmão para muito longe. Atrás dele, a voz histérica da mãe ria descontroladamente, até que por fim se calou.
___- Querido, por onde andou todos esses anos? – Antonie se virou, olhos espantados, fitando a mulher louca que sorria. – Por que me deixou aqui, Marcus?
___Marcus, o nome de seu pai. Seu espanto se tornou pavor quando percebeu que a loucura de sua mãe agora fazia dele um reflexo do pai ao qual ela queria assassinar. Ronnan fora o primeiro, e agora seria sua vez. Eleonora perdera inteiramente a razão.
___- Mãe, não! Olhe pra mim, sou eu, seu filho. Sou Antonie.
___- Ant...? – Ela parecia confusa.
___- Isso! Isso, mãe. Antonie.
___Eleonora não sorria mais, apenas olhava fixamente para o rosto assustado do garoto sentado a sua frente. Ela ajoelhou-se e colocou ambas as mãos no rosto do filho.
___- Antonie. Meu querido bebê. Meu Antonie. – Seus dedos deslizavam pelo rosto do filho de forma compulsiva, e sua expressão de alegria era medonha. Mas por um momento a sanidade parecia ter retornado a seu rosto. – Cadê Ronnan? Onde está meu filhinho?
___- Você não...não se lembra...
___- Lembrar? Lembrar do que? – Subitamente um grito seguido de lágrimas desesperadas. – Por todos os Deuses...Meu filhinho...Ronnan...Ai meu Senhor o que eu fiz?
___Eleonora se levantara e andava cambaleante em círculos. Antonie assistia ao desespero ensandecido da mãe, mas não podia esperar o que ela estava por fazer, então não pode nem ao menos esticar a mão quando Eleonora Anne Uckerman se lançou ao penhasco.
___Agora Antonie estava inteiramente sozinho no mundo, e nada tiraria a dor da perda de seu irmão. Apenas por Ronnan tinha afeto. Apenas por Ronnan tinha sonhos. Apenas por Ronnan tinha sentimentos. Mas agora não tinha nada. Ficou sentado naquele mesmo lugar até o amanhecer e o cessar das águas do céu. Permaneceria ali se não fosse o som das patas de um cavalo a lhe chamar atenção. Olhou para trás sem qualquer expressão, não sabia mais expressar nada. Um cavalo negro vinha muito lentamente, e sobre suas costas um homem muito cansado, talvez doente, ou até mesmo morto. O cavalo negro parou alguns metros antes de passar pela casa de Antonie, e o homem escorreu pelo lado direito até que seu corpo bateu no chão e lá ficou. Antonie correu até o homem.
___- EI! – Antonie, agora perto, podia ouvir a respiração pesada do homem, e ter noção do seu tamanho físico. Nossa, apenas o braço daquele homem era quase a largura dos ombros de Antonie. – Pelos Deuses, está respirando.
___O homem quase morto nada disse. Antonie fez força para virá-lo e olhá-lo melhor. Se houvessem ferimentos, chamaria o médico de Haien. Quando conseguiu virá-lo e afastar suas pesadas vestimentas negras, Antonie se deparou com inúmeros cortes profundos que vertiam sangue. Tentou se afastar por reflexo, mas seus pés se embaralharam em algo e ele caiu.
___- Uma espada... – Desviou os olhos do metal brilhante e focou no rosto manchado de sangue. – Quem é você?
___A voz do homem demorou a vir, e veio com dificuldade.
___- Bartolomeu...Hawkins...Cavaleiro de...Sir Heitor Maxmilliam. – Nada mais disse, pois o cansaço, dores e uma provável falta de alimento o levaram ao desmaio.
___- Um cavaleiro...Um de verdade... – Antonie ficou ainda alguns segundos sentado ali, até que sua mente recuperasse a noção das coisas e seus pés o movessem rápido rumo à cidade, enquanto sua voz gritava o nome do médico local.
___Antonie tinha um segredo. Um segredo que só partilhara com Ronnan, e apenas porque Ronnan tinha o mesmo segredo: A ambição de se tornar um cavaleiro em uma armadura reluzente que faria justiça com sua espada. Talvez pudesse enfim se tornar um, se Bartolomeu Hawkins, Cavaleiro de Sir Heitor Maxmilliam não viesse a perder a vida.

~ Continua... ~

Nenhum comentário:

Postar um comentário